Terça-feira, 30 de Junho de 2009

NATALINA, UMA DOMÉSTICA DE CULTURA



O pedreiro passou lá em casa e deixou uma pequena obra e muita sujeira. A limpeza seria árdua se não fossem os esforços da Natalina, uma empregada que passou uns tempos lá em casa. Mas no início da faxina minha mulher antecipou que seria muito difícil e eu disse que seria necessário esfregar exaustivamente para conseguir algum resultado. Algum tempo depois ouvi a Natalina dizer: “Já esfreguei exaustivamente e não consegui nenhum resultado”. Primeiramente pensei que ela tivesse gostado da palavra e a havia incorporado ao seu repertório pela sonoridade do vocábulo, mas logo depois percebi que não era bem isso.
Tempos depois, sentado no sofá lendo meu jornal num dia de folga, enquanto a Natalina fazia a faxina na estante ouvi a máxima: “As vinhas da Ira é um livro muito interessante. É o livro que mais gosto do Steimbeck”. Olhei para os lados para me certificar de que fora mesmo a Natalina que havia pronunciado aquela frase. E era mesmo. “Você leu todo o Steimbeck?” Perguntei surpreso. Li toda a obra e muitos outros também. Foi aí que descobri que a minha biblioteca era pequena demais para a cultura de nossa empregada, que começou a ler aos oito anos de idade e nunca mais parou. Explicou-nos depois, que praticamente nascera na casa em que sua mãe trabalhava e ainda menina bisbilhotava a enorme biblioteca da casa. O dono, percebendo o interesse da garota foi orientando a sua leitura e com isso, passava horas e horas na biblioteca.
Natalina era negra, alta e forte com um sorriso simpático e acolhedor. Ela tinha a dignidade de uma dama. Ela sustentava uma irmã doente que trabalhara durante trinta anos em uma casa de família, que a despejou tão logo ficou enferma. Quando a irmã morreu ficou numa situação difícil, pois não dispunha de recursos para o enterro. Quando ofereci o dinheiro para as despesas, ela respondeu: “Vocês não tem nenhuma obrigação em me ajudar. Eu vou falar com a ex-patroa dela. Ela sim tem obrigação”. No final precisou, a contragosto, aceitar a minha oferta, desde que fosse como empréstimo, mesmo com o meu discurso de que eu também tinha obrigação de ajudá-la num momento como aquele. Foi difícil convencê-la de que não era um empréstimo, mas uma doação.
Mas nossa alegria durou pouco e nem tivemos tempo de promover algumas reuniões literárias com a nossa culta empregada, que desapareceu de repente, sem dar notícias. Fomos até o bairro onde morava e não conseguimos localizá-la e ninguém sabia do seu paradeiro. Pobre Natalina desapareceu da mesma forma como entrou em nossas vidas, sem muita explicação.

UM COMUNISTA


Lembro-me quando meu pai contou a um primo mais velho que estava preocupado com a possibilidade de eu ter me tornado um comunista. Não que ele soubesse exatamente o seria um comunista ou comunismo. Ele tinha uma idéia muito vaga sobre isso com base nos discursos da direita conservadora. Era frequente nos meios de comunicação, os militares falarem no perigo cripto-comunista que ameaçava a família brasileira. Ele era eleitor fiel do Ademar de Barros, um famoso político do “rouba, mas faz”, mais conhecido pelas denúncias de corrupção como negociatas, desvios de dinheiro público etc. A culpa toda do medo do meu pai foi de um livro sobre a União Soviética que um colega de trabalho emprestou-me para ler. O livro na verdade não fazia apologia da União Soviética, mas uma crítica ao comunismo. Era um documentário sobre o primeiro país comunista do mundo e comentava sobre alguns progressos, mas criticava a falta de liberdade, ausência de eleições livres etc. A pessoa que me emprestou o livro não era um comunista, muito pelo contrário, ele era um liberal esclarecido. Seu nome, Rubens Novaes, o contador da empresa, e de certa forma, foi meu preceptor e chefe. Ele me ensinou os meandros da burocracia, como preencher uma nota fiscal, fazer controle de estoque, cálculos de custo, orçamentos etc. Mas ele foi além, ao me incentivar a ler romances, biografias e revistas de conhecimentos gerais. Politicamente ele oscilava entre o conservadorismo e a esquerda liberal, mas nunca assumiu uma posição política muito clara. Na fase mais crítica do governo Goulart, quando o debate sobre as Reformas de Base ganhava as ruas, ele era um ardoroso defensor da tese do desenvolvimento nacionalista autônomo. Mas quando os militares tomaram o poder, logo ele passou a defender e justificar as medidas “moralizadoras” do novo governo. Mas ele não era muito convicto, sugerindo que queria acreditar que o país havia de melhorar. De qualquer forma, devo muito ao Rubens a minha formação. Era uma pessoa bastante culta para o seu nível de escolaridade, pois lia muito. Eu estava com catorze anos quando comecei a trabalhar com ele. Durante o expediente sempre arranjava tempo para falar dos grandes escritores nacionais e estrangeiros. Lembro-me que me contou, com detalhes, Os Miseráveis de Victor Hugo, quase poupando-me de ler o volumoso romance. Pelo menos um capítulo por dia era desfiado durante o expediente, aproveitando os intervalos e a ausência do gerente.
Mas havia na empresa um comunista de verdade, com carteirinha e tudo. Era um torneiro mecânico chamado Paulo Ponciano, mineiro de Belo Horizonte. O Paulo era um mulato, culto, educado e também muito articulado, conhecedor da dialética marxista, condição que lhe dava grandes vantagens nos debates políticos durante os intervalos para o café e após o almoço. Ele tinha posições muito claras sobre o papel da classe operária na revolução e desfiava o processo revolucionário e a importância da classe operária durante os intervalos para o café e durante o horário de almoço. Mas a sua competência profissional e seriedade acabaram lhe pregando uma peça, pois acabou sendo promovido a Encarregado, situação que o deixou bastante desconfortável. Ser revolucionário e ao mesmo tempo precisar defender os interesses do capital junto aos operários como: exigir maior produtividade e disciplina, desgastaram a sua imagem.
Os operários comentavam a boca pequena: “Era comunista quando era peão, depois virou a casaca”. Depois disso, raramente se metia em discussões políticas, preferindo falar sempre em tese sobre as tendências do capitalismo. Soube, tempos depois, que pediu demissão e voltou para Minas, onde montou uma pequena indústria e se tornou um “burguês” empreendedor.
Renato Ladeia

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

O GOLPE DO RELÓGIO



Ao ver os camelôs nas ruas e praças do centro de São Paulo com centenas de relógios importados de todas as marcas, autênticos e falsificados, faz-me recordar os tempos em que a máquinas de marcar horas eram objetos pouco acessíveis à maioria das pessoas. Um bom e reluzente relógio de pulso era também símbolo de status e cidadania. Por um relógio muitos caiam no conto-do-vigário. O famoso Ômega, um suíço de pedigree era o sonho de consumo de muita gente. Falava-se no Ômega Ferradura (confundia-se a letra grega com a ferradura utilizada nas patas dos cavalos e se pronunciava o nome sem o acento).
Meu sogro, paulistano da Mooca acabou caindo no famoso conto lá pelos anos quarenta. Ele havia conseguido o seu primeiro emprego numa companhia de seguros. Com seu terno de casimira inglesa azul marinho e um chapéu Ramenzoni, faltava um relógio para completar a sua elegância. Ao receber o seu primeiro salário, não teve dúvidas, tirou o final da tarde para namorar as vitrinas das relojoarias e quem sabe, comprar um bom relógio. Enquanto sonhava diante de uma na Praça Patriarca, um homem se aproximou e lhe disse:
- Está procurando por um bom relógio moço? Tenho um por um preço bem melhor do que o da loja.
- Não, obrigado, respondeu um pouco desconfiado.
- Dê uma olhadinha e veja que belo relógio, disse o estranho, abrindo o paletó e mostrando um relógio em uma caixinha.
- Ainda desconfiado, o meu sogro desconversou, apesar do preço ser muito convidativo.

Mas o homem insistiu tanto e foi abaixando tanto o valor do relógio, que o jovem paulistano acabou topando fazer o negócio. O homem achou melhor que se retirassem para um local mais discreto, pois o relógio era muito valioso e poderia chamar a atenção. Chegando à escadaria que dá acesso ao vale do Anhangabaú, o homem mostrou o belo relógio e meu sogro imediatamente pagou. O homem entregou a caixinha e subiu a escadaria desaparecendo por entre a multidão.
No bonde não suportava mais a ansiedade de pegar o relógio e coloca-lo no pulso, mas preferiu deixar para fazer isso em casa, com calma, pois poderia ser arriscado ser aliviado por um batedor de carteiras, figura sinistra naqueles tempos. Desceu do bonde na Rua dos Trilhos e foi para casa, mal conseguindo respirar de tanta emoção. Diante dos pais tirou a caixinha do bolso do paletó e abriu. Uma desagradável surpresa: um pedaço de pedra.
No dia seguinte tentou em vão encontrar o vigarista, mas qual! Eles nunca agiam nos mesmos lugares depois de pegar um otário e ele precisou de conformar e esperar o próximo pagamento para ter o seu objeto de desejo. Naqueles tempos o roubo envolvia a esperteza e dotes de artista para ter sucesso. Convencia-se o incauto pela sua própria ambição e desejo, ainda que inconsciente, de ludibriar alguém e levar vantagem.
Alguém se lembra do golpe dos sapatos de cromo alemão nos anos sessenta? Pois bem, vale a pena contá-lo. Um senhor bem vestido entrou numa pastelaria vizinha de uma sapataria e encomendou 300 pasteis para retirar às 15 horas. Em seguinte foi à sapataria e experimentou um belo par de calçados de fino cromo alemão e manifestou sua aprovação pelo conforto que dava aos seus pés. Falou com o vendedor que não tinha dinheiro no momento, mas ia receber um dinheiro do pasteleiro ao lado e caso concordasse, pediria para que ele lhe pagasse a importância, 150 contos. O vendedor falou com o gerente e foram até a pastelaria para combinar. Lá chegando, o homem disse para o pasteleiro: “Dos 300 o senhor dê a ele 150”. O Chinês sem entender nada, confirmou o negócio. O homem levou os sapatos e às três horas em ponto, o chinês levou à sapataria, nada mais nada menos do que 150 pastéis. Não é preciso dizer que o delegado caiu na gargalhada pelo inusitado do conto diante do pasteleiro que queria receber o dinheiro pelos trezentos pastéis e do sapateiro que queria receber pelos sapatos.
São Paulo era assim, com seus vigaristas lendários e porque não dizer simpáticos. Afinal convenciam as pessoas a abrirem mão de seus bens de forma pacífica e civilizada. Que voltem os bons tempos da vigarice bem feita! Com certeza ninguém sentirá saudades de assaltos a mão-armada e cheios de violência, mas a vigarice tinha lá o seu charme.

O PAPAGAIO IRREVERENTE




Ganhamos um papagaio. Que o IBAMA nos perdoe, mas o tal papagaio foi criado em casa e aprendeu, a duras penas, a falar palavrão. Vai te..., Vai tomar..., eram expressões habitualmente utilizadas pelo bichinho de estimação. Minha cunhada, a dona do louro, trabalhava fora e para aplacar a solidão, ele repetia impropérios que eram ouvidos por toda a vizinhança do prédio. Uma vizinha, ciosa dos bons costumes, fez uma queixa num juizado de pequenas causas, pois o papagaio estava prejudicando a educação dos seus filhotes, soltando palavrões até na mesa de refeições. Entretanto, ficou uma incógnita sobre quem ensinou o bicho o indesejável repertório. A família reza de pés-juntos que não foi ninguém da casa. Conhecendo os hábitos familiares, é impossível duvidar. Com toda certeza foi algum moleque de algum apartamento vizinho, que aproveitando a ausência da dona, enriqueceu o vocabulário da ave.
Diante do impasse, ela resolveu doar o bichinho e escolheu a nós para recebê-lo. Como negar? Vamos tentar reeducá-lo para que esqueça os palavrórios pouco condizentes com os bons costumes. Minha filha até sugeriu que lêssemos poesia para que ele se tornasse um papagaio culto e de repente poderíamos até levá-lo à televisão para uma performance.
Instalado em casa, o bicho desandou a dizer besteiras. A nossa empregada, uma ciosa senhora evangélica pediu de pronto demissão. “Ou eu ou o papagaio?”. Evidentemente que foi ela, pois nunca fomos tão puritanos ao ponto de crucificar um papagaio em nome da moral e dos bons costumes. Quando aos versos de Drummond, Bandeira e Cecília Meirelles, nem pensar. Até tentamos o Bocage, mas ele considerou os versos um tanto anacrônicos e não se deu ao trabalho de repeti-los.
Além de dizer palavrórios pouco adequados a um casal razoavelmente educado e com uma filha pequena, o nosso arauto não gostava da nossa cadela, a Alpha, uma pastora mansa e meiga. O papagaio para provocá-la, chamava-a pelo nome e quando ela se aproximava da gaiola ele largava uma bicada sem nenhuma graça no focinho dela. Isso gerou uma profunda inimizade que foi a responsável direta por uma tragédia que veio acontecer alguns meses depois.
Como minha filha tinha o tom de voz parecido com a minha sobrinha, o papagaio a chamava de Carolina e por mais que ela repetisse o seu nome, ele por pirraça continuava chamando-a pelo nome errado.
- Eu sou a Mariane!
- Ahhh! Carolina!
Aos poucos fomos dando uma folga para o bicho e resolvemos soltá-lo pelo quintal. Ele muito esperto, sempre ficava nas árvores ou sobre o telhado para evitar a cachorra que o observava sorrateiramente. Quando ele resolveu dar passeios mais longos, começamos a ter problemas para localizá-lo e foi aí que alguém sugeriu que cortássemos suas asas para que ele não fugisse. A partir daí ele era colocado em uma árvore para curtir o sol da manhã e depois recolocado na gaiola.
Um dia, saímos cedo e deixamos o bicho na gaiola, como sempre fazíamos. Ao voltarmos, cadê o papagaio? Ele havia soltado o trinco da gaiola e fugido. Procuramos por toda a parte e nada do papagaio. Perguntamos aos vizinhos e nenhum sinal.
Só fomos descobrir o mistério no dia seguinte ao observar nas fezes da cachorra, restos de penas e um bico que não foram digeridos pela raiva canina. A vingança da Alpha foi fatal. Ela não perdoou jamais as bicadas no seu focinho, mesmo não considerando um papagaio uma boa refeição. Como se diz no ditado popular: vingança se come cru.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

ADEUS LENIN


Para a geração de 1968, o ano que não terminou, imaginar que um dia a estátua de Lênin seria carregada com um guindaste para ser depositada em uma caçamba de entulho, era algo simplesmente inusitado. Lembro-me de ter lido, na época, um artigo no Estadão que afirmava categoricamente que jamais haveria retrocesso na revolução russa. Ela poderia avançar, mas nunca retornar ao capitalismo consumista. O autor sinalizava que após setenta anos de revolução e várias gerações, o socialismo já estava no DNA do povo soviético. Ele ia mais longe e afirmava que a URSS estava prestes a passar por uma nova revolução, mas com outras finalidades, como por exemplo desbancar a burocracia partidária que havia se apoderado da primeira experiência socialista do planeta. Esta revolução seria mais um avanço histórico e democrático em direção à utopia comunista, uma sociedade sem classes, sem privilégios, sem fome e sem desigualdades sociais.
A Primavera de Praga, segundo o autor, que infelizmente não me recordo o nome, teria sido um passo tímido em direção às mudanças estruturais e democráticas no socialismo. Mas como ainda não havia condições históricas, ela foi violentamente reprimida pelo poderio da camarilha soviética.
Meus antigos amigos, taciturnos e revolucionários, ficaram entusiasmadíssimos com o artigo, pois muito embora torcessem por uma revolução socialista no Brasil, tinham pavor da ditadura do proletariado, que deveria vir com muita repressão aos direitos individuais. Alguns eram poetas, românticos e porque não dizer: mulherengos. A exploração da mulher como objeto sexual estaria com os dias contados após a revolução. Beber vinhos ou whisky eram hábitos pequenos burgueses que seriam varridos do mapa. Um desses meus amigos era fanático por Trotski do qual lia tudo, sendo o Profeta Armado o seu preferido. Seu sonho era passar uns dias em Paris depois da revolução para curtir as francesas que eram, na sua opinião, apaixonadas por revolucionários latinos. Era o seu sonho de consumo “pequeno burguês” e revolucionário.
Uma revolução que não suprimisse todas as liberdades e que permitisse um chopinho a beira-mar com belas garotas não faria mal a ninguém e estaria bem ao gosto do povo brasileiro que nunca seria tão radical como os russos ou chineses. Além do mais seria necessário estimular a poesia, fundamental para a saúde da alma. Alguém se lembra daquela frase dita por Stelnikoff, um bolchevista radical para o poeta Dr. Jivago: “Sua poesia é muito pessoal e a vida pessoal acabou na Rússia”? Pois é, poesia somente as revolucionárias como a do Maiakovski. Quem sabe o Ferreira Gullar seria até tolerado, mas não por muito tempo. O Poema Sujo poderia ser considerado um poema pequeno burguês decadente. Eu duvido que até o Chico Buarque, ícone da esquerda festiva brasileira, seria suportado depois dos festejos revolucionários. Músicas como Olé Olá, Carolina, Sabiá entre tantas outras seriam consideradas como resquícios de uma classe média decadente que precisaria ser extirpada de nossa sociedade.
Mas deixemos de muita conversa e voltemos ao Adeus Lênin, filme que é o objetivo desta crônica. Ele é profundamente triste do ponto de vista do personagem que busca por todos os meios preservar a memória de sua mãe que retorna a vida após meses em coma. Como dizer a alguém idealista que dedicou toda a sua vida a causa socialista que a Coca-Cola era a bebida mais consumida pela juventude da Alemanha Oriental? Que os carros do capitalismo decadente haviam destruído a indústria automobilística da República Democrática Alemã? O sonho havia acabado e ele não ousava despertar sua mãe que acordou sem saber que durante sua longa ausência pela enfermidade, uma grande revolução mudou drasticamente o mundo socialista. O neoliberalismo triunfou e acabou a História como disse Fukuyama em seu polêmico livro “O fim da História e o último homem”. O muro de Berlin desabou com a fúria popular. Um capitalismo corrupto e selvagem se instalou em toda URSS e nos países que antes eram seus satélites. Os anos de repressão violenta de nada adiantaram e o “maligno” retornou com força total. Nada restou do sonho (para alguns) de uma sociedade igualitária que era cantada em prosa e versos por sonhadores latinos.
Simbolicamente a personagem de Adeus Lênin talvez tenha sido o último suspiro da utopia que povoou o imaginário de algumas gerações. Muita gente sonhou em ser um Che Guevara aventureiro pelos campos da América do Sul, como um frei dominicano que conheci. Ele abandonou sua noiva e seu conforto para cantar as veias abertas da América Latina e salvar, para a redenção eterna, todos os pobres e infortunados latino-americanos.
Hoje, a estatua de Lênin provavelmente está disponível como peça de algum antiquário europeu, sedento para lucrar alguns dólares em seu negócio. Há também a múmia que, provavelmente, estará em algum porão de armazém corroído pelos micróbios dos quais foi religiosamente preservada durante a fase da idolatria revolucionária. Che Guevara virou um ícone da contra-cultura ou uma quase grife da moda juvenil. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamás”, famosa frase que teria sido dita pelo Che já perdeu o seu encanto, pois ele teria sido um revolucionário mais duro e cruel do que a imagem construída de que era um homem charmoso, romântico e humanista.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

LEITE DERRAMADO

Chico Buarque de Hollanda é uma unanimidade nacional e é por isso mesmo que o seu último romance, Leite Derramado, alcançou um sucesso de vendas que poucos escritores, alguns até mais consagrados pelo público e pela crítica, conseguem. É um livro bem editado, com duas opções de capa e é para ninguém botar defeito. A leitura não é das mais fáceis, pois Chico não é um escritor de textos previsíveis, com começo, meio e fim. O personagem Eulalio d´Assumpção começa a sua história em cima de uma maca se dirigindo a enfermeira que o atende num hospital público, onde as pessoas ficam largadas nos corredores, retratando a real situação da saúde brasileira.
Um velho senil que se perde entre o passado e o presente confunde personagens da história, fatos e lugares. Com cem anos de idade, Eulálio ainda conserva o orgulho de pertencer a um tradicional tronco de famílias brasileiras. Seu bisavô teria chegado com a família real portuguesa. Na sua árvore genealógica figurariam grandes fortunas do império que teriam transitado pelos corredores do poder até a República Velha.
O velhinho, apesar de arruinado, sem plano de saúde e morando em um quarto de favor em uma favela não se dá por vencido e ainda brada sua origem pelas repartições, tentando retornar o tempo perdido ou o leite derramado. Ninguém dá mais importância às tradições de famílias, principalmente para aquelas que não tem mais dinheiro. Às vezes, o personagem se torna um tanto inverossímil, com um raciocínio lógico e coerente, pois tenho a impressão de que a senilidade, pelos casos que conheço, dá pouco espaço para a lucidez. Mas o Chico consegue levar a história até o seu final com os devaneios do Eulálio.
Chico Buarque retrata de forma bastante cáustica e irônica a decadência das grandes famílias e tenho a impressão de que ele ironiza a si mesmo. Todos sabem que os Buarque de Hollanda vem de uma antiga linhagem pernambucana, que remonta aos invasores holandeses e senadores do império. Os Gonçalves Moreira, de sua avó paterna também vem de uma linhagem que envolve tradicionais famílias mineiras e ramos paulistas. A família de sua mãe, também não fica atrás, com os Cesário Alvin, uma antiga família mineira que controlou o poder político no estado. É possível que o Chico tenha ouvido durante a sua infância as velhas histórias dos seus antepassados, com suas glórias, tradições, poder, dinheiro e escravos.
Não acredito que a obra foi influenciada por Raízes do Brasil, publicada por seu pai em 1937, como afirmaram alguns críticos. O livro de Sérgio Buarque é um trabalho teórico, influenciado pela sociologia compreensiva de Max Weber, sociólogo alemão, cuja obra ele conheceu na sua estada na Alemanha no final dos anos 30. O livro do Chico, por seu turno, retrata o apego das velhas famílias aos valores tradicionais que tentam viver do passado e da pureza inexistente da “raça”, ignorando as mulheres índias e negras que ajudaram a compor a sua genealogia. A saga da família Assumpção acompanha a história do Brasil nos séculos XIX e XX, sendo neste último a decadência. Pessimista, o autor não somente empobreceu o personagem, como transformou os seus descendentes em marginais na sociedade moderna. De grandes importadores de armas, proprietários de terras e políticos influentes, foram parar na favela da Rocinha, vivendo do tráfico de cocaína. Alguma coisa no livro me lembra os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, que também retrata a saga da família Buendia na Colômbia.
A saga dos Assumpção ou o Leite Derramado reflete uma visão pessimista em relação ao futuro pelo autor, prevendo uma sociedade cada vez mais decadente e corrupta, com antigos valores conflitando com o crime organizado e a necessidade de sobrevivência. Dos casarões para a favela em três gerações e um desfecho pouco provável para uma família tradicional brasileira que na pior das hipóteses vai morar em apartamentos de classe media de Copacabana. Mas isso não altera a qualidade do romance. O Chico já não é apenas samba, mas um escritor de talento e daqui para frente os seus fãs irão vê-lo mais nas estantes das livrarias do que nas lojas de discos.

Sábado, 9 de Maio de 2009

ELE NÃO MORA MAIS AQUI



- Alô! Quero falar com o Asdrúbal?
- Quem? Ah! Ele não mora mais aqui.
- Como não mora ...? Quem está falando?
- É o filho dele..
- O que aconteceu? Morreu?
- Não meu senhor. É que ele mudou.

O meu amigo Asdrúbal mudou de endereço e não avisou ninguém. Deixou a bela casa que construiu, tijolo por tijolo, com amor, suor e lágrimas, como diria alguém mais dramático. Lembro-me de quando mudou para o local, indo morar na edícula enquanto levantava a casa dos seus sonhos. O terreno espaçoso, onde abrigaria a área de lazer com churrasqueira e local para as rodas de samba, uma de suas grandes paixões. A amoreira ficou lá, no meio do quintal. “É para os passarinhos se regalarem, dizia orgulhoso”. Ficou também uma goiabeira que no outono carregava, sobrando para presentear amigos e parentes, além dos doces e compotas.
A casa do Asdrúbal vivia repleta de bem-te-vis, sabiás, rolinhas que passeavam livres, alem de velhos sambistas que ele ia colecionando no seu rol de amizades. Por lá passaram Catolé, Padilha, Xará, Dedo, Saulo de Tarso, Wilson e outros que a minha memória deixou envolvidos em teias de aranha. Com esses sambistas baixavam os espíritos do Noel, Vadico, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Ari Barroso, Geraldo Pereira entre outros, transformando a casa do Asdrúbal num templo da boa música brasileira. Ele mesmo desfilava dezenas de sambas, resgatando coisas do arco da velha, fruto de suas pesquisas. Além disso, o nosso Asdrúbal compunha as suas marchinhas e alguns sambas memoráveis. Pena que o grande público não teve oportunidade de conhecer as canções bem construídas com letras bem humoradas e repletas de picardia. Ainda me lembro de sambas como “Dois Tijolos”, que ele fez sobre o Padilha, que há muito deixou nossa companhia.
E agora eu me pergunto: Como o velho Asdrúbal estará sem aquele espaço, rodeado de natureza e ainda impregnado do clima de antigas rodas de samba? Soube que conseguiu de um velho amigo, um cantinho numa loja de plantas e flores. Como sempre foi apaixonado pela natureza, preferiu o desconforto a ficar sem ela. Dizem que levou apenas a vitrolinha dos anos sessenta, seus discos e alguns poucos livros, entre os quais o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, que ele relê sempre que ouve a canção Mês de Maria, do Ari Barroso, cujos versos ele sempre repete “Tenho saudades do Brasil, caipira/ dos madrigais ao som da lira...”. Morar num apartamento, nem pensar. Repetia sempre o Asdrú, como carinhosamente era chamado. A vitrolinha, dizem os amigos comuns, está pelas tabelas e o chiado só aumenta. Computador, CD e outras modernidades, o velho não quer nem pensar. “Enquanto a vitrolinha funcionar eu não me separo da minha velha coleção de vinil. O chiadozinho me faz lembrar dos bons momentos, é uma ligação com o meu passado”, gostava sempre de dizer quando alguém falava sobre as inovações da tecnologia.
As lembranças do Asdrú, que pensava em passar o resto da vida na bela casa da Rua Maria das Dores, me comoveu e eu lá com meus botões fiquei a matutar sobre a tristeza de mudar sozinho, levando a roupa do corpo, deixando o espaço e todo aquele tempo vivido que foi se acumulando na memória. Por outro lado as coisas mudaram também. As rodas de samba com churrasco e cerveja já estavam rareando. Amigos mortos, outros morando longe, outros perto, mas distantes. A casa do Asdrúbal ficou apenas como uma fotografia na parede, mas com certeza, ainda dói.
Vamos deixar de tristezas porque o velho Asdru não é disso não. Com certeza ele está curtindo a sua nova vida, mesmo solitário. Seus filhos que o adoram continuam a visitá-lo para saborear os peixes que ele prepara com requintes de grand chef e ouvir os seus sábios conselhos. Uma coisa até hoje ninguém convenceu o Asdru: comer frango ou qualquer tipo de bicho penado. Aves para ele só voando no quintal ou nas florestas e campos. É capaz de passar fome, mas não coloca um grelhado de frango na boca. Dizem as más línguas que na sua adolescência até deixou de namorar a garota mais desejada do bairro somente porque diziam que ela era meio galinha. Pode?
Depois do telefonema, estou tentando encontrar o velho amigo, mas está difícil. Continua arisco como lambari em água fria. Mas prometo que quando encontrá-lo vou encomendar a ele um samba com o sugestivo título: “Ele não mora mais aqui”. Se não doer, quem sabe vamos ainda reunir a turma para cantar mais uma do velho Asdrú.